domingo, 17 de janeiro de 2010

Dialeto Macarrônico e Paulistano

“si você pensa qui nóis fumus imbora, nóis inganemos vocêis fingimu que fumus e vortemus, ói nois aqui traveis” “u arnestu nus convidô prum samba eli mora nu brais nóis fumu e num incontremo ninguém nóis vortemo, cuma baita duma réiva daotra veis, nóis num vai máis, nos num semo tatu”

Trechos das músicas “Ói Nois Aqui Traveis” dos Demônios da Garoa e “Samba do Arnesto” de Adoniran Barbosa.

Na grande região metropolitana de São Paulo do começo do século XX, um conjunto de gírias e expressões que proviam em sua maioria da lingua italiana, tomaram forma e ganharam status de dialeto. Conheça a origem do palavriado típico paulistano, e não se perca numa conversa paulistana, “pa vê si fica ispertu, certo mano?”

Origem do Dialeto macarrônico

Pra qualquer pessoa que convive em São Paulo, ou tem o mínimo conhecimento histórico da cidade, sabe que no começo do século XX uma grande frota de imigrantes italianos desembarcava no porto de Santos rumo a São Paulo em busca da vida melhor, mudando para sempre os hábitos e costumes da cidade e sociedade paulistana.

Logo quando desembarcavam em Santos, todos os imigrantes eram encaminhados da estação de trem até a estadia do imigrante, que existia na estação do Brás (onde hoje se encontra o Museu do Imigrante) e de lá, se espalhavam pela São Paulo, mas alguns italianos teimosos gostavam tanto do Brás que acabaram ficando por lá, e escolheram também, o Bexiga e a Barra Funda, como “bairros colônias”

Primeiros registros do dialeto

Além dos costumes e gastronomia que traziam nas malas, os italianos recém chegados tinham um problema, não dominavam o português e sofriam grande dificuldade em aprende-lo por completo, nascia aí o dialeto macarrônico, que era uma mistura do português com italiano.

O primeiro registro do dialeto em escrita, foi feito por Oswald de Andrade, no seu tabloide chamado “O Pirralho” que usava um pseudônimo de “Annibale Scipione” como o jornal era de publico alvo das classes mais ricas de São Paulo do começo do século XX, era um jeito das classes mais altas zombarem dos recém chegados imigrantes e seus problemas com a língua portuguesa.

A coisa mudou, quando Oswald deixou o posto para alguem mais novo, que tinha mais experiencia com os italianos, um rapaz chamado Alexandre Marcones Machado, que assumiu o editorial com o pseudônimo de Juó Bananère, que significa praticamente João da Bananeira, com seu estilo irreverente e debochado, Juó ironizava os maiores nomes da alta sociedade e grandes movimentos literários.

Descententes Italianos Tomam a Alta Classe literária

Essa mudança no Pirralho pode ser considerada a marca da acensão da comunidade italo-brasileira sobre os “quatrocentões” da alta classe. Assim como Bananère apareceu de repente no Pirralho, saiu do mesmo jeito, seu deboche era tanto, que acabou causando sua expulsão do Pirralho, por uma crítica pesada feita a Olavo Bilac, grande amigo de Oswald de Andrade (dono do tablóide) e que tinha dedicado uma edição para exaltar seu trabalho.

Outro Registro que vale a pena lembrar, é o livro “Brás Bexiga e Barra Funda” escrito por “Alcântara Machado” Um conjunto de contos vividos por descendentes de italianos, nesse livro, fica registrado diversas gírias e palavras ditas na época naquelas regiões, com uma nota do autor no rodapé para melhor compreensão, para fazer o download desse livro, clique aqui.

Marcas do dialeto paulistano em músicas

não foi só nos livros que ficou registrado essa transformação na linguagem paulista popular, a música, em especial o samba paulista, deixou sua marca na história com nomes de inúmeros interpretes, entre eles se destacam Adoniran Barbosa, e seus principais interpretes, Demônios da Garoa.

João Rubinato, verdadeiro nome de Adoniran, nasceu em Valinhos, interior de São Paulo, filho de imigrantes italianos de Veneza, morou em diversas cidades, até se fixar na capital com sua família, conseguiu um emprego de ator e chegou a gravar diversos filmes nos estúdios do Jacanã (o que viria a influenciar um de seus maiores sambas chamado Trem das 11), teve contato com as baixas classes paulistas e se apegou ao seus costumes e é claro, ao seu dialeto, o que veio reflitir na sua segunda vocação, de compositor e intérprete de sambas.

Adoniran falava do cotidiano paulista, e sem perceber, usava o jeito paulista de coversar, assim como os demais sambistas da época, algumas caracteristicas são: dificuldade em verbos no plural (nóis vai, nóis vortemo, nóis istava) com o som de “i” sempre antes do “s” no final da palavra (bráis de brás, luiz de luz, nóis de nós) e ausencia de "r" no final de verbo (eu não vou pedí de pedir, baile acabá de acabar) e devido sua decendencia italiana, o som de "i" no lugar de "e" (mí dê de me dê, pidir de pedir, di tanto de de tanto).

Não é só com Adoniran que podemos perceber esse tipo de linguajar, pode-se conferir Geraldo Filme, Oswaldinho da Cuíca, Germano Mathias e é claro Demonios da Garoa (clique nos nomes para baixar as musícas de cada artista). que juntos, ajudaram a divulgar e registrar essa mudança de cotidiano.

A Voz da Periferia dos Anos 90

No final dos anos 80, começo dos anos 90, uma grande influencia americana muda os habitos paulistanos, O Hip Hop que ja abalava as grandes metrópoles norte americanas como nova york desde os anos 70, chega a São Paulo para dar voz a periferia que permanecera calada por muito tempo.

Mediante a encontros na 24 de maio e algumas equipes de bailes, nasce uma nova cultura que mudaria a cara de São Paulo baseada principalmente em 5 pilares que são: o Break, o Grafite, os DJs, os MCs, e é claro o Rap. Dentre os grupos que surgiam na época, é facil destacar Racionais MCs, que com certeza foram os mais influentes na mudança de costume da juventude paulistana.

De origem em 1988 o Racionais MCs comporam grandes músicas que marcaram uma época, como "Nego Drama" e "Diário de Um Detento" A coisa realmente explodiu com a vinda da famosa banda Public Enemy para SP, com abertura de Racionais MCs.

A periferia então se mostra como uma bela referencia cultural, mostrando costumes e dialetos novos que passam a fazer parte do cotidiano da capital, algumas fonéticas macarrônicas ainda permanece, como o "e" em som de "i", "o" em som de "u" e o sumisso do "r" no final dos verbos (passá em passar). mas o estilo de fala muda para um mais sério e nem tão cantado como era o macarrônico, e sobre tudo, aparecem novas gírias.

O tão famoso "mano" paulista provavelmente veio do "bro" americano, apreviação de "brother", que significa irmão, assim como, "mano" é uma abreviação de irmão. "Mina" seria o feminino de mano, que é a abreviação de "menina" a música que mais fica evidente as duas palavras é "Os Mano e as Mina" do rapper "Xis".

Dialeto Paulistas nos Tempos Atuais

Depois da explosão Hip Hop nas periferias de São Paulo, a classe media alta se viu sem identidade cultural no dialeto, e passa a copiar algumas girias da baixa classe e o jeito de falar macarrônico, misturando tudo e fazendo uma enorme confusão, e é geramente motivo de piada para muitas pessoas, as principais celebridades a falar desse modo são: Supla, Marcos Mion, Luciano Hulk, Faustão, e o personagem sátira de "Hermes e Renato" Boça.

Além do famoso "mew" que seria uma variação do mano, pegaram a mania de encurtar as palavras que a periferia tinha, e distribuiu para outras palavras como, shops (para shopping) finde (para fim de semana) e facul (pra faculdade).

A classe média, principalmente de decendencia italiana, ainda segue com sua forte influencia italiana, mas nada mais comparado com o dialeto macarrônico de outrora, com pouquíssimas palavras italianas. O dialeto da periferia continua mudando, e tem algumas variações de antigamente, como "jhow" para o antigo mano, mas sua excencia ainda é a mesma.

e por fim, algumas gírias atuais de São Paulo, para não se perder numa conversa paulitana.

Eae, eai? - Comprimento, como se fosse um "oi"
Guia - Meio fio de rua
Ta ligado? - está entendendo?
Ué - o mesmo que o Uai mineiro
tamo na atividade - estamos presentes
Faról - Semáforo
Balada - Discoteca, Boate
Bater uma chepa, bater um bandeco - Comer
Bombeta - Boné
oloko - caramba!
Pé de Breque - Motorista lento
Pinga - cachaça, aguardente
Rato Cinza, Gambé, Coxinha - Apelido de baixo calão para policial
Sangue Bom - Pessoa de boa indole
Truta - Amigo
Vacilão, Vacilo - Pessoa descuidada
O que vira é... - O que é legal é...
Vaza - Vai embora
Dar uns boxe, dar um sacode, dar uma pea - Bater
Linchar, dar cambão, dar uma geral - Apanhar de muitas pessoas
Chaveco - conquistar uma mulher pela conversa
Cola aqui - Vem pra cá
Banca - gangue
Da hora - Legal
Abraça - até parece, o mesmo que "capaz" para os gauchos
Zica - Geralmente pra algo que da trabalho ou azar

5 comentários:

  1. Farol e ué são os mais utilizados por todos os habitantes de São Paulo. Eu como bom paulistano, nunca na minha vida que falei a palavra semáforo... kkkk

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  2. Ah... só um adendo: em São Paulo também se usa "amore" para se falar com pessoas íntimas, geralmente cônjuges.

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  3. Acho que o "capaz" dos gaúchos equivale mais com o "magina" do que com o " abraça" dos paulistanos.

    PS: Sou paulistana e moro no Rio Grande do Sul há 2 anos.

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