sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Triângulo Histórico

Considerado o embrião de São Paulo, as ruas XV de Novembro, São Bento e rua Direita marcam o começo do centro velho e estão presentes desde a fundação da cidade.

É chamado de triângulo histórico o caminho das 3 principais ruas, São bento, que liga o mosteiro de São Bento à Igreja de São Francisco, a 15 de novembro que se paralela a Boa Vista e pátio do colégio para se encontrar na antiga Igreja da Sé com a rua Direita, em caminho do viaduto do chá e capela do Santo Antônio de Paduá. Para facilitar, vou começar as histórias das ruas em separado.
Rua Direita

“Do lado direito, da rua direita
Olhando as vitrines coloridas eu a vi
mas quando quis me aproximar de ti não tive tempo
no movimento intenso da rua eu lhe perdi”
trecho da m
úsica “Do lado direito da rua direita” com sua interpretação mais famosa pelos “Originais do Samba”

Apesar do nome, a rua Direita tem algumas curvas e quebradas, mas em São Paulo de antigamente, era a rua mais reta perto de tantas vielas e ruas tortas do centro antigo. Entre o começo do século 19, a rua Direita sempre deu lugar às mais refinadas casas e lojas que eram o marco dourado da juventude da época. Lugares como Hotel França, Casa Garraux, o Café Acadêmico e da Chapelaria João Adolfo eram tidos como o fino de São Paulo e marcado pela sua arquitetura colonial.

Vale lembrar também do inventário deixado por Estavão Furquim, sobre uma rua que levava a capela do santo antônio de paduá, capela essa que existe até hoje, sendo a atual Igreja de Santo Antônio na praça do Patriarca, reformada, mas com o mesmo aspecto antigo.

A rua Direita já recebeu os nomes de Rua Direita de Santo Antônio (século XVI), Rua Direita da Misericórdia (séculos XVI e XVII), Rua Direita (século XVIII), Rua Floriano Peixoto (1897a1899) e finalmente, em 28/08/1899, foi restabelecida a denominação de Rua Direita, até os dias de hoje.

Atualmente, a rua mantém sua tradição de lojas e comércio que sempre teve, não tão importante como já foi, mas ainda sim de passagem obrigatória para qualquer pessoa que por ali passa em um passeio pelo centro de São Paulo.

XV de Novembro

Com um nome que remete a data da proclamação da república de 1889, certamente não seria esse o nome de uma rua que está presente desde pouco depois da fundação de São Paulo. Seu primeiro nome foi Manoel Paes Linhares, em homenagem a um suposto bandeirante que ali tinha terras.

Em sequência a rua chamaria Rua do Rosário por causa da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos que tinha no Largo do Rosário, a atual praça Antônio Prado, na outra extremidade da rua. Devido à existência da Igreja, se concentravam ali diversas pessoas ligadas à Nossa Senhora do Rosário, principalmente escravos africanos foragidos, que acabaram por se instalar nas imediações, resultando em diversas atividades ligadas ao catolicismo e a cultura africana.

Nessa epóca, segundo estudos de Nestor Goulart Reis Filho, a rua também servia de principal acesso ao porto geral, pela ladeira de mesmo nome, porto esse que não existe mais devido a canalização do rio Tamanduateí, que hoje passaria em baixo da atual rua 25 de Março.

Em metade do século 19, a rua já se consolidava como principal artéria econômica do triângulo histórico. Com tanto desenvolvimento comercial nas imediações, a Igreja do Rosário que só atraia pessoas mais pobres e descendentes de escravos, acabou por ser demolida, e as famílias que do lado moravam acabaram se espalhando para os bairros mais pobres. A Igreja acabou sendo reconstruída no Largo do Payssandú, e está lá presente até hoje, no centro do Largo, muito degradada e abandonada hoje em dia.

Como as famílias saíram, a passagem estava aberta para o desenvolvimento comercial, e assim foi! Onde antes era a Igreja, foi construído o edifício martínico prado, atual BM&F. Como o nome não fazia mais sentido, já que não tinha nenhuma Senhora do Rosário para celebrar, por um decreto de Dom Pedro II a rua muda de nome para rua da Imperatriz até finalmente em 1889 para ser finalmente chamada de XV de Novembro, em homenagem a data de aniversario da recém inaugurada república.

Entre os anos da Republica até a década de 40, São Paulo viveu a “belle epóque” e já viria a se considerar a capital econômica e cidade mais desenvolvida do Brasil, e claro, tanto desenvolvimento refletiu no triângulo e principalmente na XV de Novembro, agora tomada por bancos e gigantescos arranha-céus. Nessa época é levantado o prédio do Banespa, conhecido pelos paulistanos como “Banespão”, e fazendo enorme sombra sobre a XV de Novembro por estar no extremo norte da rua, e tomando o posto de maior edifício de São Paulo, que antes era do Martinelli como já disse nesse blog.

Tudo parecia ótimo, mas o abandono do centro histórico veio galopante nas décadas de 60 e 70 e por pura ironia, o progresso que alavancou o setor econômico acabou esquecendo seu principal embrião e migrou para pontos mais interessantes da capital, como a avenida Paulista e marginal Pinheiros.

Devido ao trabalho lento de reurbanização do centro pela prefeitura no final da década de 70, pouco a pouco foi retomado a formosidade da rua, e os bancos que tanto fizeram história na rua, permanecem lá. A transformação da rua em calçadão em todo o triângulo serviu para que grande parte da arquitetura clássica não fosse mudada, fazendo com que um passeio pela rua seja também uma pequena olhadela no passado, e para um passeio completo pela rua, é de obrigação uma visita ao banespão para se olhar todo o horizonte dessa cidade linda.

São Bento

Se a Rua Direita era a veia do comércio, a XV de novembro a veia finançeira, pode-se dizer que a Rua São Bento é a veia histórica e religiosa do triângulo, que ligava duas principais igrejas de São Paulo desde os tempos de Piratininga, o Mosteiro São Bento e A Igreja de São Francisco.

A história dessa rua nos remete aos tempos de fundação da província de São Paulo de Piratininga, como já foi dito no post desse blog sobre o Pátio do Colégio, foi fundada pelos jesuítas, a fim de educar e catequizar os índios. O principal índio foi o cacique Tibiriçá, que ajudou na construção da Igreja e foi a tribo dele a primeira a se converter ao catolicismo da companhia de Jesus. A sua tribo se localizava aonde hoje é o Largo São Bento, e foi fundada uma rua que fazia o caminho do Largo até intermédios da rua Direita, e mesmo sem nenhum registro oficial, foi batizada de Rua Martin Afonso Tibiriçá em homenagem ao nome convertido do cacique.

Já em 1600, o Pe. Fr. Mateus da Ascenção vem para a então pacata cidade de São Paulo para edificar um mosteiro e formar o primeiro núcleo comunitário. Logo que chega, é encaminhado à Câmara Municipal para explicar as intenções, e, no dia 9 de Maio do mesmo ano, lhe é fornecido o pedaço de terra mais ilustre da vila, depois do Colégio da Companhia (atual patio do colégio) que ficava na antiga casa do cacique Tibiriçá, já que o mesmo já teria falecido e sua família havia se espalhado por São Paulo. Nessa ação, podemos ver como é importante para o governo o estabelecimento de uma ordem religiosa, e que na provinciana cidade, nos seus primeiros anos, bastava pedir umas braçadas de terra que se conseguiria gratuitamente, visando desenvolvimento.

A Igreja somente seria construída em 1634, e do outro lado de sua antiga via, haveria de ser inaugurado aos 17/09/1647 o Convento de São Francisco, fazer a rua ser apelidada de “Rua que vai para São Francisco” ou “Rua de São Bento a São Francisco” exaltando o caráter religioso da via.

Em 1827 é inaugurada a faculdade de direito em São Paulo, a primeira do Brasil, no largo São Francisco ao lado do pequeno convento que até hoje está presente no largo. A rua começou a ser bastante movimentada, e por exigência dos novos estudantes (nomes como Prudente de Morais, Campos Salles, Washington Luís entre outros) cafés, bares, livrarias e diversos novos comércios acabaram brotando nas ruas próximas a faculdade, incluindo a São Bento e as outras duas do triângulo, e todas as suas vielas internas.

Até o final do seculo 19, a cidade cresceria bastante e viveria a belle epoque do começo do século. Na década de 30, a rua também é palco de outra construção que marcou época em São Paulo, o prédio Martinelli, na época o maior edifício da América Latina. Com uma de suas portarias para a rua São Bento e estabelecimentos como o Hotel São Bento e a escola de dança, a região ficou ultra valorizada.

Atualmente é de muito bom gosto o passeio do começo ao fim dessa rua, visto que os principais edifícios que fizeram história na rua ainda estão por lá, devidamente reformados. Começar no Largo São Bento, passar pelo prédio Martinelli, que não é mais o maior prédio mas ainda sim é uma visita interessante, passar pela praça do patriarca e finalmente chegar no Largo São Francisco, onde ainda está intacta a Igreja São Francisco e a já reformada e com visual deslumbrante, a faculdade de direto de São Paulo.

O Triângulo Histórico na atualidade

Depois do período de abandono que o centro histórico sofreu nos anos 80 e 90, e de um longo processo de revitalização do centro, boa parte já está recuperada. As três ruas do triângulo e suas vielas internas viraram calçadão, assim como grande parte do centro novo e velho, fazendo o passeio mais gracioso, sem carros incomodando as ruas. E para qualquer pessoa que pretende passear pelo centro histórico da cidade, é praticamente impossível deixar ignorado o triãngulo, que está de perto alcance de todos os pontos turísticos do centro.

De que outra maneira é possível ir do viaduto do Chá ate a Igreja da Sé, senão “Do lado direito da rua direita, olhando as vitrines coloridas”. Da Sé ate o Banespão, passando pelo Pátio do Colégio, sem se admirar com o comércio e os bancos da XV de Novembro? E impossível seria deixar de dar uma espiada na Igreja São Bento e seguir em frente para a faculdade de direito e a Igreja São Francisco, passando pelo edifício Martinelli, que não pela formosa Rua São Bento? Certamente que não.


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